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Sonhos
 

Artigo sobre sonhos: Psicóloga Carla C. S. Nazareth – Manaus/2011

 

A IMPORTÂNCIA DOS SONHOS NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO DA ANÁLISE JUNGUIANA
Manaus, Agosto de 2011.

 

Autora: Carla Cristina da Silva Nazareth[1]

 

 

RESUMO:
Os sonhos são um produto do inconsciente considerado por muitos povos antigos como a luz que conduzia a alma ao encontro da fonte superior de inteligência, capaz de guiar a vida de todo um povo na direção da prosperidade. As respostas para grandes dilemas já foram buscadas e encontradas nas produções oníricas de reis, autoridades religiosas e imperadores de todos os tempos. O percurso que esses líderes faziam para encontrar a resolução dos seus dilemas representa o que Psicoterapia Junguiana procura empreender no processo de análise de pacientes que se aprofundam no estudo de seus sonhos, um caminho que conduz o indivíduo a perceber, por meio deles, respostas para questões fundamentais de sua vida consciente, e que dedicar-se em buscar compreendê-los em relação ao seu próprio contexto de vida representará o mapa da alma que o fará percorrer a estrada que constituirá o seu próprio processo de individuação.


Palavras-chaves: sonho, individuação, psicoterapia junguiana, análise.

 

 

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

 

O interesse de grande parte da humanidade pelos sonhos remonta à antiguidade, sendo vistos e tratados, desde então até os dias atuais, de várias maneiras, inclusive na forma de estudos sistematizados, baseados em várias abordagens teóricas e metodológicas, bem como meras especulações que implicam em interpretações superficiais e oportunistas de indivíduos ligados à práticas adivinhatórias e esotéricas. Neste sentido, os sonhos representavam, e ainda hoje representam, a possibilidade de encontrar respostas mágicas e fáceis com o propósito de aliviar a angústia e o sofrimento daquele que sonhava. Misticamente, os sonhos traduziriam, então, um caminho que poderia conduzir, quando "entendidos", ao caminho do sucesso e da resolução de conflitos que envolviam amor e profissão.

Desde os egípcios, passando pelos povos babilônicos, gregos e romanos, todos acreditavam que os sonhos eram uma manifestação através da qual suas almas recebiam importantes orientações espirituais. Os sonhos representam, como afirma Sanford (1988), um centro de profunda forma de vida espiritual. O autor considera que este elo, entre a importância e significado dos sonhos e os aspectos que permitem compreender a vida humana, talvez tenha sido aquilo que a sociedade atual mais tenha enfraquecido com sua forma excessivamente racional de viver.


"O homem moderno está preso pelo racionalismo materialista. É claro que, a partir desta perspectiva, os sonhos não tem sentido. É esta a razão de não darmos importância aos sonhos. Persistimos em nosso materialismo racionalista, sob a ilusão de que somos racionais e os outros não (…) Os sonhos têm um sentido, mas um sentido que não é lógico. São muito reais, mas sua realidade não é apreendida por nenhum dos sentidos de nosso corpo"
 (SANFORD, 1988, p. 14).

 

Por isto, compreender os sonhos enquanto produções individuais, que apresentam respostas individuais para questões as quais muitas vezes sequer temos consciência, é compreender a importância que os mesmos possuem enquanto recurso terapêutico num processo de análise e, por consequência, reconhecer seu valor como caminho singular que leva o sujeito na direção do autoconhecimento ou, àquilo que Jung chamou de individuação.

 

Nesta perspectiva, qualquer sonho só terá valor para aquele que o sonha, uma vez que os sonhos representam, em última instância, um diálogo do nosso inconsciente conosco. Neste diálogo, verdadeiros dramas são vividos, apresentados na forma de imagens, inicialmente ininteligíveis, que precisam ser cuidadosa e habilidosamente traduzidas, significadas a partir da existência e psicologia do próprio sonhador. O percurso que se deve traçar é sempre no sentido de buscar compreender qual a mensagem que o sonho está querendo transmitir para quem o sonhou. Esta mensagem, por sua vez, será sempre algo inédito, uma vez que os sonhos nos dizem, primordialmente, aquilo que não sabemos.

 

Na perspectiva da análise junguiana, o trabalho com os sonhos assume um lugar de destaque, visto que estes são considerados material rico de possibilidades para uma interpretação pessoal e potencialmente gerador de conhecimento sobre o si-mesmo, quando compreendidos e lidos da maneira adequada, considerando aquele que sonhou. Para tanto, C. G. Jung ampliou o campo de investigação psicológica de tal modo que permitisse uma compreensão mais apurada dessas produções, ditas oníricas, que, por consequência, fundou-se na formulação de conceitos que este teórico havia proposto e no desenvolvimento de novas técnicas de interpretação que conduzisse a novos caminhos na compreensão da psique.

 

Este percurso traçado por Jung, de forma mais estruturada e científica, se consolidou de modo precioso e singular, e representa, desde seu desenvolvimento inicial, uma contribuição inestimável para a prática de inúmeros terapeutas que se aventuram a estabelecer, como viga-mestra, a pilastra do sonho como elemento central nos trabalhos com seus pacientes. Para estes, por sua vez, o desvendamento dos sonhos, considerando uma perspectiva primordialmente pessoal e particular, veio a se apresentar como o verdadeiro caminho que conduz às respostas há tanto almejadas e que ofertam não somente consolo às angústias vividas, mas também e principalmente, conhecimento profundo da sua própria personalidade, da sua própria psicologia, de seu próprio SELF.

 

Partindo dessas premissas é que este ensaio, na forma de artigo científico, apresentará argumentos e considerações que discorrem sobre a importância dos sonhos enquanto recurso terapêutico na análise de base junguiana. Pretende-se, com isso, apresentar algumas exposições acerca dos estudos que abordam este valioso instrumento no processo de individuação daqueles que se aventuram na experiência da análise pessoal.

 

Como complemento e com o intuito de enriquecer e ilustrar os aspectos teóricos apresentados, serão traçadas algumas considerações a partir de recortes fundados na observação do trabalho clínico que é fruto da experiência da autora, de modo que este ensaio cumpra ao objetivo a que se propõe.

 

 

A NATUREZA DOS PROCESSOS ONÍRICOS

 

Enquanto experiência humana, os sonhos representam um fenômeno compartilhado da maneira mais democrática que poderia existir, empreendido por todos independente de qualquer condição que pudesse ser discriminatória. Neste sentido, embora muitas pessoas relatem nunca sonhar, o que na verdade pode ocorrer, segundo estudos já comprovados por pesquisas no campo da neurociência que articulam a compreensão do sono e dos sonhos conjuntamente é fato que, muitas pessoas, por razões diversas, não registram em suas memórias, após despertarem, as imagens produzidas no estágio do sono REM, onde pressupõe-se que seria o estágio de relaxamento psíquico em que os sonhos acontecem.

 

Outra explicação seria o fato de que algumas pessoas que acreditam que nunca sonham tenham seu processo de sono prejudicado por algum distúrbio, o que impediria que as mesmas alcançassem o estágio do sono REM, onde os sonhos são produzidos. Essas pessoas muitas vezes têm sono de muita má qualidade do ponto de vista psíquico, pois não avançam da fase NREM, que é a fase caracterizada pelo descanso no nível físico. Embora existam relatos e lembranças de sonhos produzidos neste estágio, eles são raros. Já no estágio do sono REM, segundo Hall (2007, 29), "quando o indivíduo é despertado nesta fase, existe alta probabilidade (mas não a certeza) de que informe ter estado a sonhar imediatamente antes de ser despertado".

 

Uma das explicações psicológicas para o fato de que muitas pessoas não se lembrem dos seus sonhos talvez seja porque eles, os sonhos, como bem assinala Von Franz (1992), em sua belíssima entrevista a Fraser Boa, em uma grande parcela, nos dizem coisas que não queremos ouvir. Ela nos diz ainda que, em toda a sua experiência clínica, nunca encontrou alguém que não sonhasse. Nos esclarece que, por vezes, algumas pessoas em estados de depressão forte, experimentam aquilo que ela denominou constipação onírica. Essas pessoas, segundo a autora, sonham pouco e tendem a se sentirem melhor quando começam a sonhar. A autora esclarece:

 

"Eles possuem uma inteligência superior, uma sabedoria e uma perspicácia que nos orientam. Eles nos mostram em que aspectos estamos enganados e nos alertam a respeito de perigos; predizem eventos futuros; aludem ao sentido mais profundo da nossa vida e nos propiciam insights reveladores" (VON FRANZ, 1992, p. 24).

 

Enquanto processo, as produções oníricas representam a riqueza da vida de um outro que habita em nós, ao qual ainda não aprendemos a dar ouvidos da forma devida. Para Von Franz, os sonhos são verdadeiros insights criativos, produzidos por uma matriz psíquica que atua no sentido de orientar o ego consciente a desenvolver uma atitude adaptada e madura frente à vida. Prestar atenção a eles é possibilitar que esse guia interior ou centro divino que os produz, como denomina a própria autora, atue, enquanto inteligência superior, e realize o objetivo de tornar a vida do indivíduo a melhor possível. Isso não significa que os sonhos trazem soluções mágicas que nos protegerão de todos os infortúnios da vida, mas por certo, eles representam um caminho salutar e rico para que encontremos mecanismos mais adequados para lidar com todos os aspectos que possam figurar esses infortúnios, "como encontrar um sentido em nossa vida, como cumprir nosso próprio destino, como seguir nossa própria estrela, por assim dizer, a fim de realizar o potencial de vida que há em nós" (VON FRANZ, 1992, p. 25).

 

Neste sentido, os sonhos nos permitem alcançar o imo espiritual interior, aquilo que na alma guardamos a sete chaves e que o trabalho da análise ajuda a desvendar, a descobrir, a revelar e operar, como força motriz que nos impulsiona para o caminho da individuação. Na psicologia junguiana, o termo individuação refere-se "ao processo em que uma pessoa na vida real tenta consciente e deliberadamente compreender e desenvolver as potencialidades individuais inatas de sua psique" (HALL, 2007, p. 25). Utilizando-se de outras palavras, Gallbach (2000, p. 26) define individuação como "a contínua ampliação da consciência e da personalidade através da atitude simbólica e da harmonização com seu centro mais profundo". De um modo ou de outro, individuar-se é, então, manter a própria personalidade fiel às suas potencialidades mais profundas. Portanto, cumprir papéis sociais, por mais aceitos e bem recompensados que sejam, segundo Hall (2007, p.26), não é individuação. O autor adverte:

 

"É difícil descrever um processo típico ou bem-sucedido de individuação, porque cada pessoa deve ser considerada um caso único de tal processo (...) em muitos movimentos modernos de massa, o indivíduo é reduzido a uma unidade social, econômica ou militar. Nesse sentido, a individuação constitui um contraponto à ameaça de perda de valor humano num mundo que está excessivamente organizado em bases tecnológicas ou ideológicas".

 

Neste caminhar que leva o indivíduo a desenvolver ao máximo suas próprias potencialidades, chamado individuação, é que os sonhos desempenham um papel crucial e muitas vezes insubstituível. As produções oníricas facilitam, para quem se aventurar a compreendê-las, o diálogo contínuo entre o ego – o centro responsável pela consciência – e o Si-mesmo – o centro regulador da psique total. Neste diálogo, como diz Hall, encorajado na análise, o processo de individuação se desenrola.

 

Portanto, a natureza dos processos oníricos é mais ampla, rica e complexa do que alguns supõem. Os sonhos nos levam a caminhos pelos quais ainda não percorremos, nos dizem as coisas das quais ainda não temos conhecimento, revelam aspectos que até então nos eram incógnitos. Esta é a razão pela qual se orienta que uma pessoa não deve interpretar os próprios sonhos, porque, em geral, eles “...costumam tocar nosso ponto cego. Eles nunca nos dizem o que já sabemos, mas o que não sabemos” (VON FRANZ, 1992, p. 28). Querer interpretar os próprios sonhos é como tentar enxergar as próprias costas, sem auxílio de um espelho. O espelho é, analogamente, o recurso que até pode ser desenvolvido no trabalho de compreensão dos sonhos, quando alguém já está suficientemente analisado e familiarizado com o processo que envolve a compreensão dos mesmos. Até lá, assim como seria mais útil, na falta do espelho, mostrar as costas para outra pessoa a fim de que ela melhor nos diga o que vê, com os sonhos, é necessário apresentá-los a um analista experiente, que possa, juntamente e com a ajuda ativa do sonhador, desvendar as mensagens que ele nos quer revelar.

 

 

A ESTRUTURA E AS FUNÇÕES DOS SONHOS

 

Diferentemente de Freud, que considerou que os sonhos continham mensagens disfarçadas, reveladas por um conteúdo manifesto que em verdade escondia um conteúdo latente, Jung afirmou que os sonhos significam exatamente aquilo que dizem (SANFORD, 1988). O que de fato ocorre é que os sonhos não só não apresentam as coisas de forma disfarçada, como se revela por meio dos símbolos mais perturbadores. Sanford adverte para o fato de que quando não compreendemos facilmente o significado dos sonhos, não é porque eles estão camuflados por fachadas, mas porque eles falam através de uma linguagem simbólica que não conhecemos, que não entendemos.

 

Esta realidade, que implica o trabalho dos sonhos a partir da abordagem junguiana, é que imprime a extrema necessidade de que todos os terapeutas que desejarem seguir essa direção tenham um profundo conhecimento não só das técnicas propostas pelo próprio Jung, mas também de símbolos de culturas gerais, religião, mitos e contos de fadas, pois acredita-se que as produções oníricas são, essencialmente, uma linguagem que fala através de tudo isso. Segundo Sanford, os sonhos são produzidos por uma instância – o inconsciente – que se vale primordialmente de símbolos para fazê-lo, de imagens e de histórias que se assemelham muito a contos, mitos e parábolas, numa linguagem do “como se” ou de semelhança, "de modo que todo sonho poderia ser precedido das palavras ‘hoje, em sua alma, tal coisa assemelha-se a isto" (SANFORD, 1988, p. 27). É necessário, pois, que aprendamos a linguagem dos sonhos, tal como aprendemos uma língua estrangeira para que, a partir daí, eles possam se tornar mais claros e compreensivos. Sanford (1988, p. 29) resume bem esse processo sobre os sonhos:

 

"...originam-se em outra dimensão de nossa personalidade, a qual, pelo fato de não termos consciência da mesma, é chamada de inconsciente. O inconsciente nos fala através de linguagem simbólica. E se quisermos entender seus "segredos", temos de aprender a ler a mesma. Por trás dos sonhos, há um objetivo que é o alargamento de nossa personalidade e o aumento da meta de nossa vida, e quando começamos a entender o significado de nossos sonhos pomo-nos em contato com propósitos mais amplos que atuam em nosso interesse".

 

Portanto, para seguir esse caminho na direção da compreensão dos sonhos, faz-se necessário discorrer sobre alguns aspectos básicos que introduzirão o leitor à concepção de conceitos fundamentais da teoria junguiana no que diz respeito à estruturação que os mesmos – os sonhos – possuem e funções que desempenham.

 

Antes de interpretar um sonho, Von Franz (1992) sugere que ele primeiro possa ser ouvido e percebido como se fosse um drama e examinado sob três aspectos estruturais:

 

  1. 1. Introdução ou exposição, onde o sonhador discorrerá sobre o cenário do sonho e o problema que o sonho apresenta será colocado. Este aspecto permite identificar "onde" o sonhador está psicológica e emocionalmente. Por exemplo, um paciente que mudara de cidade em função de uma oportunidade de trabalho que considerava interessante, mas ao mesmo tempo temia que as coisas não dessem certo, relatou uma série de sonhos onde se encontrava na antiga empresa em que trabalhava e que havia sido muito bem sucedido. Este cenário do sonho indica que tema deverá ser trabalhado e a sequência dos fatos que ocorrem podem revelar a qual problema o sonho está se reportando.

  2. 2. A peripécia, culminação ou clímax, que apresentará o desenrolar da história e o momento em que algo pode acontecer no sentido de mudar completamente a sequência dos eventos;

  3. 3. Solução, lise ou lysis, que indica a solução final apresentada pelo sonho, que pode até mesmo vir na forma de uma catástrofe. De qualquer modo, essa parte do sonho normalmente contém aquilo que precisa ser conscientizado pelo sonhador. Quando o sonho não apresenta um final isso pode ser um sinal de que o próprio inconsciente ainda não possui uma solução para o conflito que foi colocado.

 

Para Hall (2007), a abordagem junguiana dos sonhos propõe que os mesmos sejam interpretados observando três etapas principais:

 

  1. 1. Na exposição do sonho é preciso empreender a uma compreensão clara dos seus detalhes, da maneira mais exata possível;
  2. 2. Um segundo momento seria o de construir as associações e ampliações na seguinte ordem progressiva: pessoal, cultural e arquetípica. Neste caso, a teoria junguiana propõe que os sonhos se dividem basicamente em pequenos sonhos (cujos conteúdos apresentam aspectos da vida cotidiana de quem sonha) e grandes sonhos (cujos conteúdos apresentam elementos arquetípicos, ligados a símbolos culturais, religiosos, mitos e contos de fada). Ainda existem os sonhos traumáticos, premonitórios e os pesadelos, dos quais falaremos mais adiante.

  3. 3. A última etapa seria a da colocação do sonho, já ampliado, no contexto da situação vital e do processo de individuação da pessoa que o sonhou. Neste sentido, está se dizendo que o sonho é do sonhador, bem como o seu significado.

 

Em relação ao processo de ampliação das imagens dos sonhos, Hall (idem) considera que é análoga ao processo de "descascar" as três camadas de um complexo[2]. As associações pessoais, que representam o desvendamento da primeira camada deste processo, indicam “onde apareceu a imagem na vida do paciente, o que ele pensa dela, o que sente a seu respeito” (HALL, 2007, p. 45). Para o autor, essas associações são importantes por revelarem a natureza do complexo em relação ao seu desenvolvimento em torno do núcleo arquetípico. E mesmo que as imagens cotidianas e/ou de pessoas conhecidas em um sonho possam ser aceitas objetivamente (referindo-se à pessoa real), na abordagem junguiana privilegia-se uma leitura subjetiva, onde a imagem e/ou pessoa personifique uma parte do próprio sonhador, ou seja, “a ênfase recai usualmente sobre o significado intrapsíquico das imagens oníricas” (ibidem).

 

A segunda camada, ou camada intermediária, apresentará as associações mais culturais e transpessoais, como a imagem de uma escola que representa o lugar onde se obtém conhecimento ou a de um ladrão que representa um sinal de ameaça e perigo. Segundo Hall, apesar das ampliações culturais serem conscientemente conhecidas pela pessoa que sonha, elas podem não surgir espontaneamente e o terapeuta deverá fazer com que a mesma caminhe até elas. Para este autor, a análise fundada nestas ampliações, quando bem aceitas pela pessoa que sonhou, podem ser um indicativo de que trata-se de uma parte potencial do complexo subentendido na imagem onírica.

 

O terceiro nível de ampliação, ou terceira camada, representa o nível arquetípico das associações que devem ser buscadas. Neste sentido, como já foi falado anteriormente, o terapeuta junguiano precisará ter um vasto conhecimento sobre aspectos ligados a culturas mais primitivas, história das religiões, mitologia e contos de fada, uma vez que as imagens dos sonhos podem estar se remetendo a elementos ligados a estes tipos de experiências. Para Hall, embora uma boa interpretação de um sonho no contexto clínico não precise, necessariamente, incluir este terceiro nível de ampliação, compreender essas imagens arquetípicas da mente consciente produzidas em um sonho permitirá abrir um caminho valioso para avançar no conhecimento mais profundo da psique e, fornecer uma perspectiva de compreensão saudável para os dramas pessoais cotidianos.

 

Neste sentido, é preciso considerar ainda que os sonhos só podem ser compreendidos, salvo alguns casos que destacaremos a frente, quando interpretados levando em conta o contexto da vida corrente da pessoa que o teve. Jung (apud Hall, 2007) acreditava que a maioria dos sonhos é compensatória para o ego, ou seja, apresentam o contraponto, na medida oposta, da atitude do ego dominante. A compensação, enquanto função onírica mais comum, oferece ao indivíduo que sonha, uma visão mais abrangente acerca de um ponto de vista que pode estar dominando sua vida consciente de forma excessiva e negativa, algo que pode traduzir e chamar a atenção para uma unilateralidade em seu comportamento. Neste sentido, Hall (2007, p. 47) destaca:

 

"É especialmente importante observar a atividade (ou ausência dela) do ego onírico, sugerindo amiúde paralelos imediatos com a vida vígil. Em geral, a atividade onírica, que ocorre sem a participação do ego onírico (ou com o ego onírico como um observador de fora, passivo), tende a estar também "de fora" – isto é, inconsciente – na vida vígil da pessoa que sonha".

 

Um paciente, 59 anos, em análise há três anos, cujo estilo de vida é excessivamente urbano, que costuma e prefere fazer viagens para grandes cidades, seja no Brasil, seja no exterior, onde possa encontrar as opções de lazer típicas de uma cidade grande, traz um sonho que pode servir de exemplo para ilustrar esse aspecto compensatório dos sonhos. O paciente relata que este é um sonho que vem lhe ocorrendo há um período de um ano, repetindo-se algumas vezes nesse intervalo de tempo: ele se vê andando no seu carro, por uma estrada de pedra, que descreve ser como um caminho de cidades pequenas de países da Europa, com ares bucólicos, campestres, com flores e árvores por toda a sua extensão. Ele dirigia o carro tranqüilo e passava por algumas pessoas que pareciam ser moradoras do local. Essas pessoas tinham um ar de tranqüilidade, mas ele seguia sempre em frente sem falar com nenhuma delas, apenas dirigindo pela estrada.

 

Este paciente traz esse sonho num momento em que estava se reorganizando no processo de análise, depois de ter se ocupado por um bom tempo em discutir suas preocupações relacionadas ao trabalho e aos filhos. Durante esse tempo, por excesso de obrigações ligadas ao trabalho, teve sua saúde abalada e passou a manifestar significativa insatisfação com seu ritmo diário de vida.

 

Como se observa no conteúdo do sonho, o ego onírico é levado para um lugar que representava o outro lado, não vivido, do ego consciente. Aliás, tratava-se, no sonho, de um lugar com ares bucólicos, interioranos, cuja vida segue em ritmo oposto ao de uma grande cidade – lugar de preferência do paciente. Em suas associações, este relata que o lugar do sonho em nada tinha a ver com ele, pois nunca havia estado em um local parecido e nem mesmo gostava de viajar para lugares assim. Mas conseguiu reconhecer que o cenário transmitia um ar de tranqüilidade e quietude que percebeu estar faltando em sua vida. Desta forma, pudemos explorar o sonho considerando seu aspecto compensatório e, identificando que o mesmo trazia uma mensagem que estava diretamente ligada ao momento de vida que ele estava passando nos últimos meses.

 

A compreensão do mecanismo compensatório no sonho deste paciente corrobora com aquilo que Gallbach (2000, p. 31) propõe: “O sonho coopera com a auto-regulação do equilíbrio dessa totalidade, ao compensar atitudes unilaterais do sonhador que não estão adequadas ao todo da psique ou ameaçam necessidades vitais daquela pessoa”.


Porém, além da função de compensação, os sonhos também podem ter uma função de prospecção (prognóstica), uma função de redução e uma função de reativação.

 

Enquanto função de prognóstico, os sonhos, segundo Hall (2007), podem revelar aspectos do atual funcionamento inconsciente do indivíduo. Neste sentido, Jung acreditava que o inconsciente, operando desta forma, sinalizava possibilidades do desenvolvimento ou não de uma determinada doença. Hall destaca ainda que os sonhos iniciais em análise podem ser um recurso valioso para estabelecer diagnósticos em situações em que isso se faz necessário.

 

A função de redução, por sua vez, pode ser verificada em sonhos que apresentam conteúdos que parecem desinflar o ego onírico de uma atitude que é vivida pelo ego consciente. De certa forma, a redução parece uma forma de compensação, e seu objetivo parece ser o de alertar o sonhador para as fragilidades que ele ignora e tenta, portanto, compensar com uma atitude oposta na sua vida vígil. Um exemplo disso pode ser um aluno que se considera o mais brilhante e inteligente da sala sonhar que teve um desempenho medíocre na prova mais importante de sua vida.

 

Por fim, a função de reativação é caracterizada pelos sonhos que se repetem em conteúdos que provocam um forte impacto emocional no sonhador. Neste caso, é razoável pensar que situações traumáticas possam ser resgatadas nos sonhos repetitivos, bem como é possível inferirmos que isto acontece para que o conteúdo desagradável que o sonho emana possa ser integrado pela psique. Jung acreditava que, desta forma, a força do aspecto que é aversivo vai diminuindo e abrem-se possibilidades para que ocorra uma reorganização psíquica e/ou a conscientização de alguma coisa importante que o indivíduo não está percebendo.

 

Compreender adequadamente de qual função o sonho está se servindo exige habilidade e treinamento por parte do terapeuta junguiano, que deverá considerar, sempre e prioritariamente, o contexto de vida do indivíduo que teve o sonho. Na visão de Jung (apud Gallbach, 2000, p. 31) "a compreensão de um sonho só ocorre se relacionada à situação atual da personalidade, o que marca a importância do contexto de vida".

 

 

OS SONHOS E O PAPEL DO EGO ONÍRICO: A PONTE PARA O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

 

A compreensão dos sonhos implica em também visualizar, com clareza, de que tipo de sonho se está falando e qual o papel que o ego onírico assume no desenrolar dos fatos que se sucedem. Anteriormente dissemos que os sonhos se classificam em pequenos sonhos, grandes sonhos, sonhos traumáticos, sonhos premonitórios e pesadelos. Quanto ao papel do ego onírico, é de fundamental importância que se identifique qual a ação praticada: o ego onírico é ativo no sonho ou é passivo, submisso? Ele conduz as ações dos eventos ou é conduzido por outros elementos projetados?

 

Quanto aos tipos de sonhos, os pequenos sonhos apresentarão temas mais comuns, do cotidiano, com elementos que fazem parte da vida diária de quem sonha. Esses sonhos não costumam revelar aspectos marcantes e por isso podem ser mais facilmente negligenciados.

 

Os grandes sonhos assumem um caráter mais marcante e, por serem também significativamente mais complexos, em função dos elementos que os compõem, tendem a ter origem na esfera do inconsciente coletivo. Seus elementos remetem a questões da coletividade, abarcam aspectos que são arquetípicos e, por isso, exigem um sólido conhecimento em simbologia, mitologia, religião e temas de contos de fada por parte do terapeuta.

 

Os sonhos traumáticos, por sua vez, mobilizam fortemente o sonhador do ponto de vista emocional, e assim o fazem exatamente porque remetem a situações marcantes e dolorosas (traumas) que o indivíduo vivenciou. Nestes casos, esses sonhos podem ser utilizados para auxiliar a pessoa a elaborar a situação traumática e se reorganizar psiquicamente.

 

Já os sonhos premonitórios são menos comuns e normalmente contém aspectos de sincronicidade[3]. Neste tipo de sonho, eventos externos são antecipados ou vividos simultaneamente ao momento em que o indivíduo sonha com algo que envolve diretamente o tema em questão. Muitas vezes o tema do sonho é absolutamente o mesmo e ocorre da mesma forma que o evento externo. O aspecto inquietante desse tipo de sonho é que nunca se saberá que ele é um sonho premonitório até o momento em que um evento externo aconteça e lhe confirme essa qualidade.

 

Sobre isto, na sua entrevista a Fraser Boa, quando perguntada se sonhos que prenunciam a morte indicam que alguém realmente vai morrer, Von Franz (1992, p. 220) respondeu: "Bem, eu diria que enquanto a pessoa viver você nunca pode ter certeza (...) Eu nunca ousaria dizer isso antes de o fato ocorrer".

 

Por fim, os pesadelos caracterizam um outro tipo de sonho que costumam mobilizar o indivíduo do ponto de vista emocional. Para Von Franz, pesadelos são verdadeiras terapias de choque e sua função é a de nos sacudir e chamar a atenção, de forma dramática, para a situação perigosa que estamos ignorando. Segundo a autora, “sua característica é uma certa urgência, como se o inconsciente dissesse: ‘Olhe aqui, esse problema é urgente!’” (1992, p.99). Hall (2007, p. 127) corrobora as idéias da autora e nos diz:

 

"Ao longo da vida, o Si-mesmo exerce uma pressão contínua sobre o ego, tanto para que enfrente a realidade como para que participe do processo de individuação. Ele faz isso com ou sem o consentimento voluntário do ego, mas as compensações contra o ego relutante (pesadelos, acidentes, sintomas físicos, etc.) costumam ser mais severas do que a relação complementar do inconsciente com um ego que está se esforçando ao máximo para participar conscientemente do processo de individuação".

 

Neste sentido, é absolutamente necessário que o ego consciente perceba sua atitude diante da vida (que poderá aparecer contraposta pela posição do ego onírico), que reconheça a posição que está ocupando e enxergue a exigência natural que o conduzirá na direção do desenvolvimento de sua psique, da individuação. Hall adverte que um ego imaturo terá poucas chances de alcançar um estado maduro enquanto não enfrentar as situações que lhes são terríveis e potencialmente ameaçadoras.

 

Como exemplo do que o autor fala, recordo os sonhos de uma paciente, que possuem sempre o mesmo aspecto: ela é constantemente perseguida por cães enormes, lobos, cachorros ferozes que tentam atacá-la, destruí-la. No sonho, o ego onírico apresenta uma atitude de total passividade, não esboça nenhuma reação a não ser a de tentar fugir dos ataques. É importante observar que, em sua vida consciente, esta paciente tem um histórico de constantes situações de abuso, não sexual, mas todas as demais formas de abuso que sempre imprimiram marcas de dominação de outras pessoas sobre sua vida. Sua atitude diante dessas situações e pessoas que protagonizam tal dominação é de uma clara submissão e passividade. Em seu momento atual de vida, sua disposição psíquica para modificar significativamente esta realidade ainda é quase incipiente, mesmo que isso seja fonte de atroz sofrimento.

 

Exemplos como esse permitem-nos afirmar a importância dos sonhos para auxiliar no processo de individuação que a análise oportuniza. Trabalhar com os pacientes para que eles se instrumentalizem das condições necessárias para perceber os meandros e contornos de suas produções oníricas, bem como para que se apercebam dos ganhos que podem advir da real disposição em fazer uso das mesmas para o seu crescimento psicológico, é a grande tarefa do analista junguiano. Um terapeuta bem treinado jamais perde de vista o fato de que os sonhos, como propôs Jung (2008), dizem respeito, em grau variado, à vida de quem sonha, mas também que são parte de uma única e grande teia de fatores psicológicos.

 

Num processo de análise fundado no trabalho com os sonhos, quando examinamos uma série total dos sonhos de um paciente, é possível observar as mudanças, ainda que lentas, que os mesmos sofrem. Jung nos diz que estas mudanças podem se acelerar se a atitude consciente do sonhador for influenciada pela interpretação apropriada dos seus sonhos e dos seus conteúdos simbólicos. Ele afirma:

 

"...se observarmos esse desenho sinuoso durante um longo período, vamos perceber a ação de uma espécie de tendência reguladora ou direcional oculta, gerando um processo lento e imperceptível de crescimento psíquico – o processo de individuação.
Surge, gradualmente, uma personalidade mais ampla e amadurecida que, aos poucos, torna-se mais consistente e perceptível mesmo para as outras pessoas." (JUNG, 2008, p. 211).

 

Ao nos depararmos com essas afirmações, deparamo-nos também exatamente com a temática sugerida para a construção desse artigo. Quando o assunto é a riqueza da vida onírica, este ensaio poderia se estender ainda sobre inumeráveis aspectos implicados nos trabalhos que, ao longo dos anos, desde Freud e Jung, foram desenvolvidos por diversos teóricos da abordagem analítica, tais como o poder de cura contido nos sonhos, a natureza dramática dos sonhos em minúcias, a herança espiritual e cultural dos sonhos na história da humanidade e por aí adiante. A impressão que temos é que este é um assunto que não se esgota e, dizer isso não parece ser nenhum exagero se considerarmos que nem a qualidade e conteúdo das produções oníricas, nem as infinitas possibilidades de interpretações dessas, igualmente não se esgotam.

 

Sobre o fato de o processo de análise ser um caminho valioso para se empreender a busca pelo Eldorado dos sonhos como mecanismos promotores do processo de individuação, finalizo este ensaio emprestando as palavras de Sanford (1988, p. 177) quando nos diz que a vida tem muitas curvas e reviravoltas e que cada um de nós possui um destino que tem de seguir e completar, semelhante a uma linha que vai tecendo seu caminho através de tudo o que nos acontece. Os sonhos nos ajudam a encontrar e seguir essa linha. Precisamos de ajuda, pois, de outra forma, facilmente nos perdemos. Quando perdemos aquela linha, segundo o autor, os sonhos funcionam como um alerta que nos avisam que nos afastamos do caminho. Quando o encontramos, os sonhos avisam qual a direção que então devemos tomar. "Como os índios americanos diziam, os sonhos se assemelham à luz dada pelo Grande Espírito à alma, a qual, doutra maneira, vaguearia na escuridão".

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

FRANZ, Marie Louise von, Psicoterapia. São Paulo: Paulus, 1999.
___________. O Caminhos dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 1992.
GALLBACH, Marion R. Aprendendo com os sonhos. São Paulo: Paulus, 2000.
HALL, James A. Jung e a Interpretação dos Sonhos – Manual de Teoria e Prática. São Paulo: Cultrix, 2007.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
SANFORD, John A. Os Sonhos e a Cura da Alma. São Paulo: Paulus, 1988.

 

[1] Psicóloga Clínica-Hospitalar, atualmente é professora e coordenadora do Curso de Psicologia da Universidade Paulista, Campus Manaus, atua na Fundação de Hematologia e Hemoterapia do Amazonas como psicóloga hospitalar e em consultório particular como psicóloga clínica, sob a perspectiva da abordagem psicoterápica junguiana. Atualmente, especializanda no curso de Psicoterapia Junguiana, da UNIP-SP.

 

[2] Complexos são simplesmente os motores da psique. São como diferentes núcleos, que impulsionam e vitalizam a psique. Se não tivéssemos complexos estaríamos mortos. Você experimenta um complexo, por exemplo, quando se sente entediado e de repente algo lhe interessa e você se envolve. Aí um complexo foi tocado. Assim, os complexos são simplesmente os centros de energia da psique. (VON FRANZ, 1992, p. 38)

 

[3] Sincronicidade, segundo Jung, é a simultaneidade de dois ou mais acontecimentos, ligados pelo significado e sem conexão causal. (Gallbach, 2000, p.37)

 

 

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